2008/07/31
Nos meses de Julho e Agosto, "ataco" a cerveja e volto-me muito para os vinhos verdes simples. Bebo muitos rosés e sobretudo testo a qualidade dos vinhos mais publicitados. Alguns desses são produtos de grande êxito comercial pelo que me parece pelo menos razoável - para não dizer obrigatório - ver os produtos "com que o mundo nos vê".
Esta minha mania começou quando há alguns anos numa prova fora de Portugal um jornalista norueguês me perguntou o que eu achava do Mateus Rosé. Eu disse, sobranceiro, que há muito tempo que não provava esse vinho. Ele ficou escandalizado e disse-me "mas é o vinho que Portugal mais vende e é um caso de estudo mundial!" Senti-me um tolo, por ser português e não conhecer os produtos do meu país.
O dito Mateus Rosé passou a entrar muitas vezes na minha mesa, quando se trata por exemplo de cozinha indiana ou chinesa. Constato, nos restaurantes chineses mais pequenos que depois de eu pedir a pequenina garrafinha (bebo meia, normalmente) há muita gente que também pede, abdicando da cerveja. Percebo, por conversas trocadas com a Sogrape que há simpatia pela marca em Portugal, apesar de pouco comentada ou confessada.
O que se aplica também a outras marcas. Lancer's rosé, por exemplo, está em todos os bons restaurantes algarvios porque ingleses e americanos não o dispensam; até querem provar o vinho na sua terra de origem.
Marcas como Gatão, Gazela, Lagosta, Casal Garcia, etc., funcionam muito bem com bivalves petiscados (amêijoas à Bulhão Pato, percebes, canilhas, etc.) e com marisco ao natural.
Os vinhos verdes também pontificam nas minhas escolhas veraneantes, a preços muito razoáveis. No Verão do ano passado, fez-me muita companhia o rosé da Adega Cooperativa de Ponte da Barca, que custava cerca de 3 Euros a garrafa e cumpriu muito bem o seu desígnio.
Graças a estas minhas manobras de Verão, ganhei um respeito muito grande pelos vinhos que são - pelo menos por enquanto - os nossos embaixadores no mundo. E gosto muito do quanto nos defendem as bolsas.
(Tópico lançado na rede Star Tracker do talento português no mundo)
2008/07/06
Viva a rede "Star Tracker" pela iniciativa (www.thestartracker.com)
Não há cozinha como a nossa, apesar dos seus muitos recantos pouco visitados e talvez pouco acessíveis. Ora descende da necessidade absoluta de alimentar a família em tempo de escassez, ora demonstra um luxo de ingredientes que ainda hoje temos dificuldade em reproduzir. Não há talhão lusitano que não tenha os seus regionalíssimos pratos de peixes maturados, de vísceras preparadas à maneira de preciosidades, ou de condimentos picantes e sápidos que tantas vezes fizeram as vezes da proteína que insistia em não cair no prato. Pode, por isso, precisar de iniciação quem não conheça as bases da cozinha portuguesa, quando finalmente se quer aproximar dos pratos que nos vão a nós, portugueses, no coração e na memória. Afastámos os fantasmas da escassez e da fome, e soubemos fazer da mesa uma festa incrível e sempre farta, mesmo que parca em variedade. Nem todos estamos bem dispostos quando estamos à mesa, porque somos dados à fatalidade. Se nos lembrarmos do recado do Poeta, de que “só os povos profundamente alegres podem ter canções tristes”, e se transportarmos o dito para a mesa, depressa percebemos que a festa do nosso fantástico do povo está no conteúdo e na alma do que preparamos e comemos, mais do que na forma.
Ribeiro fixa a receita do recheio dos pastéis de nata assim:
1 litro de leite / 50g de farinha / 1 litro de calda de açúcar a 30º / 12 gemas de ovos. Liga-se a farinha com o leite e vai a cozer; deixa-se ferver muito baixinho 2 a 3 minutos, e mistura-se o açúcar. Quando estiver morno adicionam-se as gemas.
Já Olleboma fixa duas receitas, das quais elegemos a mais simples:
Misturam-se 5dl de nata fresca não batida, 8 a 10 gemas de ovos e 150g de açúcar branco. Leva-se ao lume até levantar fervura, mexendo sempre e, em estando morno, aplica-se.
Leite em João Ribeiro, natas em Olleboma, se dissermos as receitas em voz alta percebemos uma coisa chocante: dizem o mesmo, em dialectos diferentes. Enquanto um se atém à proteína original – leite -, o outro parte da nata fresca. De resto, fazem-se num instante e só temos de aprofundar o leite, os ovos, açúcar e a farinha – a que Olleboma renuncia – com os quais fazemos o recheio. Esse aprofundar, contudo, dá para uma vida inteira. Depois, pau de canela, casca de limão, vagem de baunilha, etc., são acrescentos que os doceiros mais atreitos à complicação chamam para os “seus” pastéis. Trabalho inglório, porque tudo o que é da verdadeira culinária portuguesa, ninguém inventou; é invenção de todos. Que ninguém tente, por isso, apropriar-se de tal património!
Quando penso sobre a massa folhada que deve ser feita para os pastéis de nata, primeiro penso “qualquer uma”. Mas depois de os provar, são inefáveis os que são feitos com a massa de 5 voltas, com banha e um pouco de manteiga, duas idas ao frio e longanimidade, que sem paciência nada se consegue. Mas não quero insistir neste ponto, parece-me inútil, face à dificuldade que um português encontra pelo mundo fora, quando tenta, a partir dos ovos, leite e açúcar locais reconstruir o “seu” nata. Até porque Maria de Lourdes Modesto é de opinião que a massa com banha não é a mais apropriada.
Defendamo-nos, por isso de fabricantes de pastéis de nata que nos dizem que têm uma “sala do segredo”; esses falham em ambos os pontos que aclamo. Os “pastéis de Belém” são isso mesmo: de Belém. Para caminhos obscuros nos levam quando nos dão a ler “cuidado com as imitações”. Não é esse, seguramente, aquele que testemunha a culinária portuguesa pelo mundo fora. É, antes, o simples, seja de João Ribeiro ou de Olleboma. Feito na China, pode não saber ao mesmo, mas é um pouco de Portugal que ali estará.
2007/10/25
José Mota Capitão está na linha certa, com uma equipa invencível de vinhos 2005
Foi na York House – que bela volta deu Nuno Diniz ao restaurante – que provei os três vinhos de 2005 da Herdade do Portocarro. Juntamente com as Soberanas, fica no Torrão e mostra as Terras do Sado com alma alentejana e perfil atlântico. José Mota Capitão ficou conhecido no ano passado pelo seu “Anima”, um vinho que só pode ser designado “Vinho de Mesa” pela excentricidade de ser Sangiovese em casta estreme, a mesma que está na base dos super-toscanos. Em 2005, surge com outra surpresa, o “Cavalo Maluco”, que passa a ser o topo de gama da casa. Fica um pouco em terra de ninguém o Herdade do Portocarro “standard” que, apesar do que parece, é um bom vinho. Espantou-me sobretudo constatar a enorme competência enológica mostrada por Paulo Laureano.
15,5 Herdade do Portocarro Regional Terras do Sado tinto 2005 – Muito afinado, este vinho mostra ameixa madura e muito vegetal. Está bem feito, cumpre as etapas obrigatórias para os bons vinhos, mas não vinga no final como devia vingar, vindo de onde vem. Há qualquer coisa na “receita” deste vinho que urge afinar. Melhora quando acompanha comida e funcionou bem com o brilhante ossobuco do chefe Diniz. PVP 15 Euros, 7 mil garrafas produzidas. Castas: Aragonês (30%), Alfrocheiro Preto (30%), Cabernet Sauvignon (30%), Touriga Nacional (5%) e Touriga Franca (5%).
18 Herdade do Portocarro Vinho de Mesa Anima – Demora o seu tempo a abrir mas vale a pena esperar. Mostra as notas típicas da casta Sangiovese – ginjas, amoras e alguma hortelã -, aqui muito bem complementadas por muita mineralidade, emprestada pelos solos peculiares do Torrão. PVP 32 Euros, 2.500 garrafas produzidas. Castas: 100% Sangiovese.
18,5 Herdade do Portocarro Regional Terras do Sado Cavalo Maluco tinto 2005 – Homenagem a um chefe índio da tribo dos Sioux, corajoso até ao fim, perante a violência gratuita e vazia de sentido dos pioneiros americanos. José Mota Capitão preferia sempre ser índio em vez de cowboy nas suas brincadeiras de infância com os amigos. Vai dedicar cada edição do Cavalo Maluco a alguém, sendo este primeiro dedicado a Luís da Mota Capitão. O que me apetece dizer sobre este vinho é que nasceu mais um grande vinho português. O aroma é fechado até ao final da prova, mostrando apenas alguns laivos minerais no início, depois sinais evidentes de violetas e cerejas, indiciando fortemente a Touriga Nacional e mais tarde os frutos em compota da Touriga Franca. Depois acaba-se o que temos no copo e voltamos à mesma aventura que é provar este néctar excepcional. A boca é complexa e plena de emoções. O vinho “anda” muito bem ao longo de uma refeição, mostrando sempre novas nuances à medida que o tempo e a oxigenação passam. Final interminável. PVP 28 Euros, 3 mil garrafas produzidas. Castas: Touriga Franca (45%), Touriga Nacional (45%) e Petit Verdot (10%).
Nuno Falcão criou uma família consistente de vinhos, num Ribatejo que insiste em ser cada vez mais inconsistente.
Fica mesmo ao pé de Santa Margarida, onde os Comandos andam aos tiros e a correr para trás e para diante, a Quinta do Casal da Coelheira. O espaço foi até há bem pouco dos herdeiros do grande industrial metalúrgico – que fez as famosas Berliet para os ditos comandos – chamado Duarte Ferreira. Vicissitudes diversas fizeram com que a casa entrasse em colapso, adquirindo as terras o pai de Nuno Falcão, que deixou os sítios onde trabalhava como responsável agrícola – ele é engenheiro mesmo engenheiro do ISA – para se dedicar ao projecto familiar.
Dá gosto estar com o enólogo no acolhedor espaço de enoturismo, em pleno centro do Tramagal. A sua simplicidade e simpatia deixam muito boas marcas. Eu já o conhecia dos júris de diversos concursos, de provas, eventos e feiras, mas nunca tinha estado na sua casa. É diferente. É qualquer coisa que eu sinto que não podemos deixar nunca de fazer, ir até casa dos produtores e aí falar e provar com eles. A gama de vinhos Casal da Coelheira começa no vinho corrente, com o qual se enchem muitos garrafões dos locais ao fim de semana, logo a seguir fica a marca “Terraços do Tejo” de recorte simpático e preço absolutamente apetecível. Entra depois a marca Casal de Coelheiros e no topo – mesmo topo – da gama está o já mítico Mythos. Deixámos o vinho de garrafão para trás e concentrámo-nos nas duas últimas marcas.
15 Casal da Coelheira DOC Ribatejo branco 2006 – Macio, descomplicado, sentem-se bem as notas do Fernão Pires. É um vinho bom para todos os dias. PVP 2,55 Euros. Castas: Fernão Pires (90%), Chardonnay (5%) e Malvasia (5%)
15 Casal da Coelheira Regional Ribatejo rosé 2006 – Está bem maduro e resulta fresco na boca. Mostra fruta vermelha, principalmente morangos e termina seco, o que o torna apto para a mesa. Fiquei surpreendido quanto o Nuno me disse que é 100% Castelão, a casta injustamente proscrita das vinhas portuguesas mas a partir da qual ainda se fazem bons vinhos, de perfil moderno. PVP 2,70 Euros.
16 Casal da Coelheira DOC Ribatejo tinto 2006 – Aqui está um mix harmonioso feito a partir das Tourigas Franca e Nacional. Aliás, a combinação está a aparecer muito pelo sul de Portugal, tenho dado por uma aposta forte na Touriga Franca. Fresco e maduro, sem nunca pesar, marchou bem com o queijinho que o Nuno trouxe da queijaria artesanal de um amigo dele. Não podemos esquecer o ano desgraçado que foi 2006, pelo que é um feito ter conseguido um vinho pelo menos consensual. PVP 2,85 Euros.
17 Casal da Coelheira DOC Ribatejo Reserva tinto 2005 – Vinho profundo, com garra e raça, fazendo jus ao lado bom da fama do Ribatejo. É vinho com grande aptidão gastronómica, veio-me à cabeça um cabrito assado com pouca gordura como se faz no Cristina, em Abrantes, ali mesmo ao pé. Castas: Touriga Nacional (60%), Cabernet Sauvignon e Touriga Franca. PVP 6 Euros.
18 Casal da Coelheira Mythos tinto 2004 – Quando um vinho começa a limpar concursos, provas e círculos enófilos, e me toca passá-los pelo meu copo sou muito mais exigente do que com os outros. Mas este Mythos correspondeu totalmente às altas expectativas que dele tinha e digo mais, vou pôr seis garrafas na minha cave. Daqui a cinco anos falamos. PVP 12,50 Euros. Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet.
Casa de Santa Vitória lança vinhos “Talha de Ouro”
São eles o Casa de Santa Vitória Reserva branco 2006 e o Inevitável tinto 2005 e alcançaram o grau máximo na prova anual dos “Melhores do Alentejo”, promovida pela Confraria dos Enófilos do Alentejo. Estão em lançamento e foram dados a provar num dos muitos hotéis do grupo Vila Galé, proprietário também da Casa de Santa Vitória. Desta feita, aconteceu no Vila Galé Estoril, no restaurante… Inevitável Steak Lounge. Antes de mais, as inevitáveis notas de prova e a indispensável classificação.
16,5 Casa de Santa Vitória Regional Alentejano Reserva branco 2006 – Aromas de madeira algo evidentes, mas sem atrapalhar demasiado o ciclo da prova. Toranja e algumas notas florais, complementadas por toque minerais que lhe acrescentam na harmonia. Boca equilibrada, acídula na entrada, tropical no final. Boa persistência, revelando a untuosidade que lhe acrescenta um lado guloso. Boa companhia para pratos gordos. Lembrou-me, em particular, um arroz de tamboril ou um bacalhau à lagareiro. PVP 9,50 Euros, 6 mil garrafas produzidas. Castas: Chardonnay (60%) e Arinto (40%).
18 Casa de Santa Vitória Regional Alentejano Inevitável tinto 2005 – Aromas de ameixa e azeitona preta. Torna-se atraente pelos complementos de ervas aromáticas secas e ligeiros toques de madeira. Corpo suave, sem pesar, terminando em impressões de ameixa e figos, com notas claras e prolongadas de chocolate. PVP 20 Euros. Castas: Touriga Nacional e Syrah.Bernardo Cabral tinha tudo para fazer o seu trabalho um pouco escondido, mas não foi esse o caminho que escolheu. Em vez disso, criou nos quase 130 ha de vinhas um imenso laboratório e teatro de ensaios, estritamente tirados da sua fantasia enológica. O projecto de Santa Vitória é de concepção de Nuno Cancela de Abreu, mas há que pôr os olhos no jovem Bernardo, que está em Albernôa como peixe na água. Hei-de escrever um pouco mais sobre ele, mas hoje o texto fica-se pelos vinhos.
2007/10/23
Acabo de constatar a minha enorme incompetência e a forma desnaturada com que defraudo todos, ao ter um blogue onde não escrevo há um ano!
Mas eu explico: está para ir para o ar o meu site, há tanto tempo que até dói. Mas tenho muitas, mesmo muitas coisas para debitar aqui. Os vinhos e a comida continuam a ser o ponto central da minha vida profissional, com o prejuízo que se vê para o "coté passion".
2006/10/26
As trajectórias concorrentes de vinhos e pessoas
Desde que organizei a "prova dos cultos" no Eleven que uma ideia se me vem sedimentando dentro e que não tem, curiosamente, nada de novo: Uma peça de vinhos com as opiniões dos melhores críticos da especialidade não tem nem um décimo da notoriedade de uma peça de vinhos com testemunhos de famosos.
Então por que não se faz mais "disso"?
Estou sempre a tropeçar em mais um "projecto pessoal" - leia-se secreto, para chegar lá primeiro que os outros - ou em peças que são escritas para dois ou três críticos lerem. "Gostei imenso da tua peça, já era tempo de alguém publicar". Pobre leitor das revistas da especialidade, tantas vezes angustiado a ler aquilo tudo como se fosse sério e fundamental para o seu aperfeiçoamento enófilo!
Na prova dos cultos, as pessoas disseram disparates, como toda a gente diz. Riram e gozaram o programa como toda a gente gosta de gozar. E, mais importante que tudo, enganaram-se. As pontes de contacto com os leitores estão aqui e é este o filão a explorar, para quem quiser ser lido e respeitado por TODOS, produtores, negociantes e público em geral.
Agora temos mais uma revista de vinhos em Portugal que, felizmente, parece estar aí para ficar. É muito bonita, chama-se Blue Wine e está a fazer um trabalho sustentado. Na sua carta de princípios, ou estatuto editorial, podia ler-se, no início do projecto, que se pretendia uma colagem ao comum leitor, para que ele se identificasse com a revista. Isto era dito em clara oposição à Revista de Vinhos que, no dizer do seu staff, "é feita só para o sector". Tudo bem. Eu esperei alguns meses. Até agora.
É que já complicaram tudo. Já querem afirmar que têm o melhor painel de prova e que só eles é que sabem provar. Que diabo os terá tentado, para cairem em tamanho abismo?
Só provam em condições xpto, nunca há provas de vinhos, por exemplo em casa de produtores, em restaurantes, ou salas de provas que não sejam as suas!
Os homens que tinham a chave da comunicação com o pobre leitor, já estão num campeonato de que ninguém quer ouvir falar. Prova cega? Boa! E o que tenho eu a ver com isso? Diga lá mas é se este vinho vale ou não vale o dinheiro que pedem por ele. Diga lá mas é quais são os best-sellers dos vinhos portugueses. Diga lá mas é quais são os restaurantes que mais roubam os clientes e quais os que mais os respeitam, no que toca à carta de vinhos!
Ninguém, mas mesmo ninguém, está empenhado em dar resposta a estas questões e outras cem mais.
É de ir às lágrimas.
Ou de deixar passar.
2006/07/29
Douro 2004: What should we expect?
Quinta de La Rosa's Centenary staged a massive tasting of the new 2004 Douros
Since the awful vintage of 2002, a kind of every-winemaker's-nightmare year, Gods have been merciful and generous for Douro producers. 2003 produced thick, tannic and yummy wines, with some excellent Reservas coming out. In 2004, wines show what they've been missing since 1999: balance and elegance. The tasting took place at The Vintage House Hotel, organised by the greatest wine PR of all times, Dorli Muhr. Which means, of course, that tasting conditions were second to none, and that the wines represented were an actual and effective way of feeling what "The New Douro" is all about.
I am not publishing my impressions in any magazine whatsoever, so I can be entirely informal. Or, even better, I can restrict my opinions to something like "I liked" and "I didn't like". Here it goes.
I liked
* "Prazo de Roriz" Red 2004 - Very good overall balance, the wood is well integrated and there is a freshness that floods both the nose and the mouth.
* "Três Bagos" White 2005 - More and more, you see who's actually behind the scene here. Dirk Niepoort now proposes a Rhein bottle. Follow the leader!
* "Xisto" Red 2004 - As I didn't like the previous - and first - edition of this wine, I have more than welcomed the 2004. Let's see what the Roquette-Cazes venture is preparing in the vintages to come. Because... Shouldn't this wine be a totally different one? Am I being naive?
** "Meandro" Red 2004 - The second wine of Vale Meão, it's very smooth, ripe and absolutely ready to drink.
** "Post Scriptum" Red 2004 - I'm quite sure this will be one of the symbols of the 2004 vintage. Excellent balance of alcohol and acidity, with a carefuly-knit structure.
** "Três Bagos Sauvignon Blanc" White 2005 - Only 20% of this wine staged in oak barrels. Dry, fresh, and ready to drink. And, what's more, they came out with 14,000 bottles of this besutiful wine.
*** "Charme" Red 2004 - It's the first time that I find Charme a slot behind that of Batuta, but that only means that Batuta 2004 is a huge accomplishment. This Charme shows thickness and elegance in equal, massive, amounts.
*** "Quinta do Crasto Touriga Nacional" Red 2004 - Very good, probably the best showcase of the eponymous Touriga Nacional available, for the time being.
*** "Quinta de La Rosa" Reserva Red 2004 - La Rosa exorcised all its ghosts by hiring Jorge Moreira. Same grapes, same cellar, give rise to wines you would have never expected, ever since the 2002 vintage.
*** "Redoma" Red 2004 - The best Redoma yet, this is a shockingly good wine, nothing like any of the other 2004s from the Douro. Happy buyers of this wine will be surprised!
*** "Três Bagos" Red 2004 - This wine stands out from the whole collection of previous "Três Bagos". Now, it's a deep, complex wine, filled with balance and freshness. It surely will get its reputation back, as Lavradores de Feitoria's flagship product.
**** "Quinta do Vale Meão" Red 2004 - Incredible length and depth. This Vale Meão is a masterpiece, although I find that it is at least a year's distance of being ready to drink.
**** "Batuta" Red 2004 - Jam, pepper and the "usual" surprise of having a massively tannic wine in the mouth without any evidence of it whatsoever!
**** "Pintas" Red 2004 - Thick, long and spicy. What can I say, when this is a wine I wouldn't mind to have something against, given its skyrocketing career but, then again, I don't!
**** "Poeira" Red 2004 - Another monotonously fabulous wine, maybe at its peak. When he gets an elegant year, Jorge Moreira surely knows how to take advantage of it. Brilliant.
**** "Quinta do Vale Dona Maria" Red 2004 - The first vintage from this producer that I really enjoyed! It boasts 14,7º alcohol and yet you taste it as a super-elegant wine.
I didn't like
- "Altano" Reserva Red 2004 - A wine with no soul, for the soul-less drinker. What's the point of producing this kind of wines?
- "Callabriga" Red 2004 - What were they doing there with so poor a sampling of Sogrape's wines, in such a rich and revealing tasting?
- "Chryseia" Red 2004 - They say that the wine only staged for 9 months in Taransaud French oak barrels, meaning that it should not show so many "woody" notes. I'd say that if the wine would stay in oak barrels for a greater period of time, it would be less marked by the wood and would turn out to be more drinkable. As its is, it's a terrible experience. It will smooth down in the bottle, you might say. Of course. In 20 years time.
Sou Cavaleiro do Vinho do Porto
Em pleno dia de S. João, no passado dia 24 de Junho de 2006, fui entronizado Cavaleiro Confrade Honorário da Confraria do Vinho do Porto. Pela mão de Francisco (Vito) Olazábal, Chanceler da confraria, recebi as insígnias relativas ao grau, ao mesmo tempo que ouvia, ditas por ele, as palavras: "foi a sua paixão pelo Vintage que o trouxe até aqui; espero que continue!"
Anteriormente, enquanto caminhava ainda sobre a passadeira encarnada, antes de me serem dados a tomboladeira e o diploma, anunciavam, ao microfone, que "Fernando Melo" é jornalista da Revista de Vinhos e tem particular interesse pelo Vinho do Porto, especialmente Vintage". Com a enorme dificuldade que eu próprio tenho em interpretar ou sequer descrever a minha própria vida, tive ali, de repente, um dos atravessamentos mais correctos e de maior alcance dela.
Estava plenamente convencido de que não ia escrever nada sobre este assunto da minha entronização. Tanto, quanto agora estou de que o devo fazer. É que são inumeráveis - felizmente - todos aqueles que me têm ajudado, ao longo de mais de dez anos, numa caminhada tão complexa quanto fantástica, de mergulho nas coisas do vinho. É a eles todos - a vocês todos - que quero dedicar a glória que me foi concedida.
Muito obrigado.
Joaquim Madeira e sua mulher Graça, uma paixão que se prova
No dia 29 de Junho de 2006, quando fora do microclima do interior do meu confortável carrinho o mundo fundia a 40ºC, aterrei em Aldeias de Montoito, ali para os lados de Reguengos, para um programa muito especial. Realizava ali o casal o seu "Almoço das Ervas 2". Falhei o primeiro, por um erro óbvio de avaliação de prioridades - que me fez ficar em Lisboa por coisa nenhuma, há cerca de um ano e meio - e este ano não permiti que isso acontecesse. Até porque andava "por ali", entre Monsaraz e a Vidigueira, há dois dias.
O intuito do acontecimento era, segundo a pequena mas bonita acta lavrada no livrinho que Graça e Joaquim fizeram o favor de elaborar, "partilhar alguns sabores e aromas alentejanos, perdidos no tempo (...), que assiduamente eram parte constitutiva dos pratos dos nossos antepassados e que emanaram de espécies herbáceas e arbustivas, muitas delas ainda existentes nos campos do Alentejo". De todas as ervas presentes, tiveram parte nobre as beldroegas e os cardos. São as mais "pobres" e as mais "espontâneas", apesar de darem nas mais fabulosas sopas e fundos que Portugal tem. Hoje são espezinhadas e passam despercebidas, outrora eram o ouro da terra e a garantia, para os pobre mesmo pobres do Alentejo, de que o sono nocturno correria seguido e profundo, até à labuta do dia seguinte. Graça e Joaquim são casados, mas corre neles o mesmo sangue, alentejano, que é o dos Sabicos e cuja casa mãe é aquela que hoje ocupam e na qual produzem vinho: A Casa de Sabicos. Se no Alentejo são todos primos, aqueles são uns primos muito especiais, porque o seu amor dá proporcionar momentos e dias inesquecíveis. Atenção, porém, às palavras de Graça Santana Ramalho: "As ervas não são o fim, o fim é o convívio convosco; temos conhecido muitas pessoas boas".
A Dança das Ervas
Foi assim que Joaquim e Graça entenderam chamar ao repasto, que começou mais de uma hora atrasado, por minha causa, que ainda não consigo medir a lonjura das distâncias. O baile herbáceo tinha, na verdade 6 danças diferentes e só chegou ao fim quem conseguiu ter o metabolismo em bom estado logo no início. Foi o meu caso, devo dizer, apesar de ter ficado a conversar com as iguarias e com os vinhos até ao dia seguinte. Foram, então as seguintes: 1) "Ervas em Fruta": Meloa com tomilho; Maçã reineta com poejo; Morangos com hortelã. 2) "Ervas em Legumes": Abóbora com coentros; Favinhas com entrecosto, coentros, hortelã e folhas de alho; Saladas de alface e tomate com agrião, coentros, hortelã e orégãos; 3) "Ervas em Ervas": Acelgas com feijão; Cardinhos com carnes de porco alentejano; Beldroegas com queijo e ovos. 4) "Ervas em Tudo e Tudo com Muitas Ervas": Queijo assado com orégãos, tomilho, alecrim e compota de frutos silvestres; Sopa de tomate com hortelã da ribeira, orégãos, bacalhau e ovos; Borrego estufado com rosmaninho. 5) "Ervas em Licor": Licor de poejo. 6) Dieta (!!!): Sopa de feijão com massa e batatas; Arroz de hortelã com bacalhau; Migas de espargos com enchidos fritos de porco alentejano; Gelado de limão; Gelado de meloa; Pastéis de toucinho.
O projecto "Sabicos" parece de monta, mas a boa companhia e o ar condicionado do telheiro que o casal mandou fechar tornaram tudo mais fácil.
Estava tudo num ponto incrivelmente bom, sendo a escolha dos "melhores" apenas determinada pelo gosto de cada um. A mim, "bateram" com força a sopa de tomate - parabéns, Graça, porque não me levou ao tapete" -, as beldroegas com queijo e ovos, leia-se sopa de beldroegas - A MELHOR SOPA DO MUNDO -, os cardinhos com carnes de porco alentejano e a sopa de feijão com massa e batatas, cuja confecção, do mais cândido que há, derruba qualquer um. Diziam os habitués que é normal ficar-se com a fantasia de provar de novo a iguaria quando se pensa em sabicar outra vez...
Os vinhos
Joaquim Madeira é o actual presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana e, se isso não vem para o caso, verdade é que instituir-se em produtor de vinhos de qualidade significa, pelo menos, obrigação de não falhar. O que o próprio, aliás, reconheceu, com outras palavras. Quem o colocou nas coisas do vinho foi o seu pai que, em 1965, quando apanhou o seu filho recém licenciado, o pôs a produzir um vinho. "Tinha 14 castas, o que hoje seria impensável". Pois, não fora o sabico Madeira ter-se acometido à mesma tarefa em 2004, ao juntar num mesmo vinho - o Joaquim Madeira tinto 2004 (17) - 14 uvas diferentes. O resultado foi um néctar que, do alto dos seus 15º, publica impressões de antigamente como poucos vinhos hoje fazem. Há alguma passa presente no seio da selva frutada que envolve o copo, mas os toques balsâmicos e a boca cheia de coisas aveludadas conquistam-nos com violência e sem piedade. Ainda anteontem tive uma conversa com amigos ao jantar, em que eu confessava a minha prisão emocional aos vinhos velhos e aos vinhos que me trazem as sensações clássicas. O enólogo que hoje assina a carta de compromisso nos Sabicos é Paulo Laureano e, como não podia deixar de ser, há um Joaquim Madeira branco 2005 (16). É um Antão Vaz, a casta em que Laureano tem muitos pergaminhos e é um branco que satisfaz bem a procura de coisas boas. Adivinha-se-lhe mais comprimento, que se vai buscar ao passar do tempo em garrafa. Tropical, bem maduro, até parecia ter algum açúcar residual, "mas não", disse o Paulo: "tem menos de 3 g/l de açúcar". Sim, senhor enólogo!
A culminar, saiu um produto novo para as mesas, o "Avó Sabica tinto 2004". Ao mesmo tempo que é uma homenagem a Maria, avó de ambos - Graça e Joaquim - é um vinho cujas uvas provêm da vinha "de pedra" no Redondo que o casal detém. Pareceu-me que podia estar ali em gestação um novo estilo de vinho alentejano, mas era cedo para opiniões definitivas. Está para sair e então logo o provaremos. Fica, no entanto, o aviso.
2006/03/08
O Champagne Deutz aposta forte em Portugal
Miguel Grijó e Pedro Leitão, da Vinidecanter, já tinham avisado que estavam a "trabalhar" com a Deutz (lê-se Datze, com o A mudo), mas eu estava longe de imaginar que o trabalho cavaria tão fundo no mercado nacional, com honras de jantar na Galeria Gemelli, em Lisboa, com o representante da família que até há bem pouco - antes da compra pela Louis Roederer - da casa Deutz, perto de Epernay, para explicar tudo aos menos letrados em bolhinhas na forma de cordão, como é o meu caso. A lição valeu a pena, na que foi uma organização conjunta Loja Corpo e Alma / Vinidecanter.
A Deutz foi fundada em 1838 por dois franceses com nomes pouco óbvios em França, não estivéramos na região de Champagne, onde os sangues tendem a fundir-se mesmo a baixas temperaturas: William Deutz e Pierre-Hubert Geldermann, ambos fugidos da Prússia de Napoleão, mas conhecedores do seu métier. Geldermann era vendedor de champanhes e Deutz era homem de negócios. A amizade entre os dois sócios era tal que os seus filhos Alfred Geldermann e Marie Deutz - adivinhe quem era filho de quem - casaram. A coisa fica séria e a Deutz acaba por fazer parte do núcleo exlusivo de fundadores do Syndicat des Grandes Marques, em 1882. Foi então que passou a fazer parte da classe das grandes marcas de Champagne, uma designação que, se for tudo sempre bem feito, não se perde mais. Estava-se, portanto no "segundo império" napoleónico, trinta anos antes dos gigantescos problemas que quase destruiriam toda a Champagne, ou toda a França.
A célebre revolução dos lavradores da primeira década do séc. XX resultou em saques e apropriações ilegais de enorme gravidade, mal do qual de resto França só se veria livre 50 anos mais tarde, passadas as guerras mundiais e a fome, que dizimaram as populações rurais. No que toca à Deutz, apesar de sempre se ter conseguido manter acima da linha de água, a obsessão pela produção e respeito pelos antepassados - o carisma dos fundadores ainda hoje se sente, apesar de estar nas mãos da Roederer - quase roçou a loucura, com a família totalmente endividade e tecnicamente falida e ainda assim sendo sempre a fazer o esforço para continuar. Há qualquer coisa nas bolhinhas que mais parece magia do que vinho.
Hoje a empresa está bem e recomenda-se. Vinhedos próprios que satisfazem cerca de 40% das carências vitícolas da casa, vindo as restantes uvas de lavradores com quem a Deutz mantém relações estáveis há várias gerações, sem nunca as haver interrompido, apesar das guerras e revoluções. A produção actual situa-se em 1,4 milhões de garrafas. Dessas, provámos algumas na Galeria Gemelli, num jantar que mostra bem os pergaminhos do Chef Augusto Gemelli quanto a capacidade de conjugação vinhos/iguarias.
O jantar
Pecados de queijo Scamorza fumado e alcachofras, gelatina de pêssego e alecrim.
85 Deutz Brut Classic N/V (30 Euros)
Conjugação: 50%. Tipo tabuleiro de xadrez, à maneira de contraste, talvez duros demais. Tenho um preconceito severo em relação à amizade entre alcachofras e vinhos... Em relação ao champagne, tendo em quanto que se trata de um vinho entrada de gama, já estamos muito bem.
Ostras ao vapor com couve lombarda crocante e emulsão de trufa branca.
92 Deutz Millésimé 1999 (30 Euros)
Conjugação: 90%. Seria impossível imaginar o resultado sem o provar, porque a elaboração estava brilhante. Até a trufa branca casou bem com o néctar. Ostras com couve? Há que provar! Conselho: não tente fazer em casa.
Gnochetti de camarão sobre caril de fruta branca, presunto estaladiço.
95 Deutz Blanc de Blancs 1998 (55 Euros)
Conjugação: 80%. O caril parece saltar do prato, quando se leva o vinho à boca. Há um efeito potenciador de parte a parte que torna tudo muito feliz. O vinho é, como o nome diz, feito a partir apenas de castas brancas e apresentou uma frescura e comprimento na boca invulgares na sua tipologia.
Suprema de pintada cozinhada a baixa temperatura, redução agridoce de citrinos e pudim de risotto de shiitake.
92 Deutz Cuvée William Deutz 1996 (100 Euros)
Conjugação: 75%. Algo confuso no palato, este caso foi paradigmático para mim, talvez pelas notas oxidativas do champagne. Gostava imenso de acompanhar o entusiasmo dos promotores em relação aos produtos topo de gama, como é este champagne de homenagem a um dos fundadores, mas infelizmente muitas vezes acontece o contrário. Talvez ele tivesse brilhado mais se o prato fosse menos eclético.
Sopa morna de chocolate branco com especiarias, frutos silvestres e perfume de laranja.
89 Deutz Cuvée Rosé 2000 (50 Euros)
Conjugação: 50%. As notas deste rosé inspiram mais frutos secos e hortelã do que os frutos silvestres e, por isso mesmo, a sensação foi mais a de ter duas coisas separadas, vinho e iguaria, do que os dois num só.
As inefáveis conjugações musicais de Tiago Sallas, da Corpo e Alma, sairam quase imperceptíveis, por duas razões, que são as de sempre: 1) Música excessivamente baixa; 2) Ruído excessivamente alto. Mas a sua insistência há-de dar um dia um tratado de triangulações vinho-música-iguaria.
2006/02/24
Ficam aqui as notas de prova - pela ordem por que foram obtidas - de novidades que chegaram entre a quadra natalícia de 2005 e as primeiras semanas de 2006. Vamos tentar ser sistemáticos e provar todas as segundas-feiras.
14,5 Ribeira da Ervideira "Castas d’Ervideira Touriga Nacional" Vinho Regional Alentejano tinto 2003
Boa frescura. Demora algum tempo a mostrar tipicidade. Final de boca em cacau e chocolate amargo. Notas vegetais em toda a prova. Mesmo tendo relativamente pouco álcool (13º), consegue mostrar um perfil alcoólico.
13 Ribeira da Ervideira "Terras d’Ervideira" Vinho Regional Alentejano tinto 2004
Vinho directo, sem grandes nuances nem ambições. Temos um verdadeiro alentejano, com pouca acidez. Taninos evidentes, mas dá uma prova harmoniosa.
15 Ribeira da Ervideira "Vinha d’Ervideira" DOC Alentejo Colheita Seleccionada tinto 2004
Bom fruto no nariz, vibrante. Entrada de boca elegante, para depois abrir em fruto maduro e bom comprimento. Termina seco, com toques da madeira, o que lhe faz adivinhar mais um ou dois anos de pleno rendimento aromático em garrafa.
17 Ribeira da Ervideira "Conde d’Ervideira" DOC Alentejo Garrafeira tinto 2002
Nariz muito floral e frutado; chega a ser carnudo. Muito bom equilíbrio na entrada e desenvolvimento de boca, a povoar o palato em quase toda a parte. Excelente complexidade, explosão de aromas e sensações na boca e no arrière-goût.
15 Ribeira da Ervideira "Conde d’Ervideira" DOC Alentejo Reserva tinto 2003
Notas balsâmicas no nariz, complementadas por retronasais que inspiram a madeira e o estágio em barrica. Mostra ameixa madura na boca, até ao final. Tem muito por onde evoluir, para assentar a matéria prima que contém e ganhar complexidade. Este vinho faz uma passagem interessante do estilo tradicional para o moderno.
13 S.A.A. Mascata "Quinta do Côro" Vinho Regional Ribatejano Reserva tinto 2003
Alguns acetaldeídos no nariz. Também não está à altura da promessa da entrada de boca. Desenvolve facilmente terciários desagradáveis, que tornam o vinho quase rústico.
16 Manuel J. Pinto "Casa da Palmeira" DOC Douro tinto 2001
Belíssima frescura, este vinho perdeu as notas de madeira americana exageradas que outrora mostrava e afinou na garrafa. Está pronto para ser bebido. Foco frutado muito bom, com boas nuances de ervas aromáticas, dando uma prova agradável.
15,5 Manuel J. Pinto "Quinta de Vila Maior Touriga Franca" DOC Douro tinto 2002
100% típico da casta e, nesse sentido, um bom exemplar de Touriga Franca, A "Touriga Francesa" de há pouco tempo. Bem integrado, com a presença da madeira ainda a fazer-se sentir. Pergunto-me, no entanto, se faz falta este monovarietal no mercado.
17,5 Manuel J. Pinto "Quinta de Vila Maior Touriga Nacional" DOC Douro tinto 2002
(Madeira Cadus?) Força e elegância, neste exemplar da rainha das castas portuguesas. Adivinha-se-lhe o perfil majestático quando se leva o copo ao nariz e faz-se uma vénia a este fantástico vinho quando se põe na boca. Descobre-se um lado mineral quando deixa o palato e entra-se num percurso comprido de estímulos, quando se permite que seja o vinho a invadir-nos e não o contrário.
17 Manuel J. Pinto "Quinta de Vila Maior" DOC Douro tinto 2002
Sangue fresco e uma miríade de aromas, em torno da esteva e das violetas, num fundo mineral que é difícil de esquecer. A boca podia corresponder melhor a estes excelentes augúrios aromáticos, mas fica aquém. Pelo final seco de prova, contudo, pode ser que as coisas afinem e melhorem, com o passar do tempo.
17,5 Churchill Graham "Churchill Estates" DOC Douro tinto 2003
Muito floral no nariz, mostrando predominância de Touriga Nacional. Boa frescura, a corresponder ao grande ano que foi 2003 para os produtores de vinho de mesa duriense. Bom comprimento na boca e final longo.
16 Quinta Nova N. S. Carmo "Quinta Nova de N. S. Carmo" DOC Douro Reserva tinto 2003
Aromas de uva pisada em lagar que se tornam numa nota dominante. Fruta passa, algo enjoativa. A boca é mais interessante que o nariz, mas o conjunto não está nada afinado. Ou faz a afinação que lhe falta, ou estamos a perder tempo.
16,5 Soc. Agr. Quinta da Alempassa "Quinta da Alempassa" DOC Douro Reserva tinto 2004
Aromas complexos e maduros, a denunciar um terroir quente. Entrada de boca é feita em equilíbrio, para depois abrir cereja, compota de ginjas e alguma esteva. As notas sobremaduras dominam, contudo, o conjunto. Vai encontrar, seguramente, muitos adeptos este vinho estreante.
2005/10/31
O primeiro chama-se "7 de Outubro 2003 Viognier" e o segundo "Subtilezas Gastronómicas"
O nome do vinho diz quase tudo. Em Alenquer, vindimar a 7 de Outubro implica colheita tardia, ou safra arruinada. Na Quinta do Monte d'Oiro, em Ventosa, um talhão de Viognier estava com um aspecto extraordinário, como que a querer recuperar créditos, face às uvas que carinhosamente tinham sido tratadas nas palminhas para produzir os restantes vinhos. O resultado foi um néctar que representa a entrada de José Bento dos Santos no universo mais complexo da enologia: o dos colheitas tardias.
16 Quinta do Monte d'Oiro "7 de Outubro Viognier" Vinho Regional Estremadura branco 2003 - Côr dourada carregada, com o líquido a mostrar a untuosidade que se espera da sua categoria. O conteúdo aromático anda pelo tropical e é sedutor, fazendo apetecer pôr na boca. Não se sente botrytis - talvez o vinho não a tenha -, mas há um conjunto de emoções que marca o nariz e faz adivinhar um vinho grande. A prova de boca, contudo, não dá seguimento ao crescendo de sensações que a atencede. O equilíbrio é prejudicado por alguma falta de acidez e o vinho fica "no meio da boca", não evoluindo em comprimento nem em persistência.
A minha nota de prova aparece numa altura em que o "7 de Outubro" já foi aclamado pelos meus correlegionários, e numa altura também em que um ou dois deles me adivinharam uma perversão que não existe, ao supostamente querer denegrir o esforço de José Bento dos Santos. Nada disso importa nem me interessa, nem deve influenciar a avaliação que faço dos vinhos.
Nota suprema tem, si, o livro que foi escrito pelo dono do Monte d'Oiro, todo pensado em torno do "7 de Outubro". É um conjunto de receitas que Bento dos Santos propõe para o neófito vinho. "Subtilezas gastronómicas" representa um trabalho hercúleo, daqueles a que poucos se acometem. E corre bem o risco de se tornar uma referência. É que é muito mais do que um trabalho bem feito. É um repto, repartido em três, cada um com seu destinatário:
1. Produtores. São diversos os criadores de vinhos que temos e mais ainda - bastante mais - os enólogos. Guardo boa memória de vários "instantes decisivos", nos quais se decide criar um novo perfil para um vinho, quando não um vinho totalmente novo e que, para meu gozo, aconteceram à minha frente. É profunda a forma como produtores, criadores de vinhos e enólogos hoje, nalguns casos, trabalham em conjunto. Mas fica quase sempre por definir a "comunidade natural" dos ditos vinhos. Desde pálidas sugestões, como "caça de penas", a excitações, como "beba-o com um bom peixe", a comida parece ser batuta de outra pessoa qualquer. Não chegam em número aos dedos de uma mão os produtores que conheço realmente empenhados em definir perfis gastronómicos válidos para os seus vinhos.
2. Cozinheiros. Profissionais ou não, novatos ou experimentados, "não vale" pretender passar ao lado do vinho na concepção de iguarias, por muito que se possam inscrever na frente mais inovadora do momento. Não somo aqui mais exemplos positivos do que no ponto anterior. Apesar do muito que se diz, por exemplo, dos novos chefs espanhóis, em particular que são os embaixadores do vinho do seu país no mundo, estou convencido do contrário. O vinho não tem papel central na sua forma de criar.
3. Gastrónomos. Mais do que o conceito que pode estar por trás de cada prato, a execução e afinação serão sempre aspectos críticos para a conjugação do vinho com a comida. Parece-me estar-se ainda num certo "torpor" dos ingredientes e não da elaboração das diversas partes de uma receita. Isso reflecte-se, na minha opinião, no resultado que se transmite.
2004/07/03
Surpresas boas e dois ou três desapontamentos
Restaurantes
As coisas boas:
** Ritz Four Seasons - A propósito do novo livro de João Paulo Martins, dedicado aos vinhos generosos portugueses. Não me canso de recomendar a quem passe por Lisboa - ou more em Lisboa - para não deixar de fazer a experiência.
** A Galeria Gemelli - Para desabafar no ombro de um bom amigo, quando há tanta gente que não sabe o que faz. Genial: carpaccio de atum, numa qualidade de matéria prima inacreditável.
5 do 10 - Porto de abrigo para o quotidiano, quando pesa sempre tanto. Regresso de João Garcias à calha, com a casa regularmente inundada de pessoas interessantes e interessadas.
100 Maneiras - Foi aqui que para mim Portugal bateu a Inglaterra. Qualidade, qualidade e qualidade. Espero que José Avillez aguente o ritmo; a casa bem precisa de mais clientes.
As menos boas:
* Fortaleza do Guincho - Afastou-se de mim e mantém insistentemente uma carta que está cheia de coisas que já conhecemos. Ou Marc Le Ouedec está desmotivado - impossível - ou a casa está a sentar-se prematuramente em cima dos louros. Não há nada que não se consiga estragar. Cuidado!
Monte Mar - Pela primeira vez em tantos anos de fidelidade, vieram oferecer-me um peixe deplorável. "Coma este robalinho, está muito fresquinho". Por que não o comem vocês, já que a conta somos sempre nós que a pagamos?
Vinhos
As coisas boas:
Zambujeiro tinto 2001 - Alentejo - Bem conseguido, consensual mas mesmo assim diferente. É disto que o Alentejo precisa.
Monte da Ravasqueira tinto 2003 - Alentejo - A venture de José Manuel de Mello, secundado por Filipe, seu filho e Manuel Amaral Cabral, seu genro, brilha pela correcção do foco que tem em relação ao produto. "Fazer o melhor vinho alentejano a 6 Euros". Outra coisa de que o Alentejo precisa. Parabéns ao grande financeiro e a Rui Reguinga, o enólogo.
Ferreirinha "Quinta da Leda" tinto 1999 - Douro - Nunca me soube tão bem e quero acreditar que não foi por o ter provado ao almoço com Lígia Marques, RP da Sogrape, e Manuel Guedes, um dos homens da terceira geração da casa. O vinho amaciou e está prontinho a beber agora. Quem ainda tiver, confira.
As menos boas:
Aveleda "Grinalda" 2003 - Vinho Verde - Assim não vamos a lado nenhum. Vinho curtíssimo na boca, desagradável, acídulo.
Quatro Séculos de Vinho do Porto no Ritz
Foi mais um acontecimento daqueles por que vale a pena sacrificar uma noite de sábado. A coisa agradou-me duplamente: em primeiro lugar, estaria em prova um vinho do séc. XVIII - do Porto, ou melhor, do Douro Superior -; em segundo lugar, por se cumprir um costume completamente perdido, de rumar para os bons hotéis da capital ao fim de semana. O elemento masculino foi dominante, o que é ainda de lamentar, mas sempre serão de saudar as senhoras que marcaram presença. O Hotel Ritz Four Seasons merece a visita, com as estrelas fortes no Maitre Sommelier João Pires e no Chef Stéphan Hestin. Para quem se interessa pelo assunto gastronomia-vinho, não são precisas quaisquer outras referências. Para quem navega mais ao largo, temos ali um homem do vinho de andança internacional, com trabalho confirmado na rede dos grandes sommeliers do mundo. Temos, também, o jovem francês que trabalhou lado a lado com o famoso Bernard Loiseau nalguns dos mais estrelados restaurantes da Europa.
E temos também Paulo Cruz, como sempre no seu estilo de apaixonado e que não deixa sequer respirar quem se atreva a dizer que não gosta ou não conhece bem o vinho do Porto. Consta que não há quem não se "converta", pela sua mão experiente. É o dono do Bar do Binho, em Sintra e há já muito tempo - cerca de dois anos - que não puxava dos galões. Mais que não fosse, para que todos percebêssemos que o que Paulo Cruz, negociante de Porto, não faz, ninguém faz. Vamos então ao Ritz.
Uma promessa cumprida
Com o título "Quatro séculos de vinho do Porto", o encontro teve convocatória distribuída à tertúlia normalmente animada por Paulo Cruz, estendida a todos os interessados, iniciados ou não nas coisas do Porto. Neste caso específico, convinha que existisse já alguma iniciação, para que não se perdesse pitada das relíquias prometidas.
Foi com gozo grande que revi caras que não via há cerca de dois anos, os leais e sérios orbitantes dos grandes vinhos doces. Outra demonstração do "fenómeno Paulo". Estava tudo sentado à mesa, com cerca de 40 militantes prontos para o desafio. Telemóveis desligados, problemas adiados para depois, responsabilidades em banho-maria, tudo a postos. E um aroma do outro mundo, com todos os vinhos servidos, alinhados em flights pela organização da prova.
O primeiro flight foi logo de arromba, dividindo de imediato as opiniões. Estavam ali um Niepoort Colheita 1908 (engarrafado em 1972), um Borges "Soalheira Vineyard" Vintage 1917 e um Niepoort Garrafeira 1931 (engarrafado em 1938, decantado em 1979). Tirando o vinho do meio, já um pouco chato no palato, a sala rachou ao meio, metade para o Colheita, outra metade para o Garrafeira. Com o passar dos minutos e a opinião, percebi que me tornei uma raridade, porque pendi para este último. De qualquer forma o choque estava dado.
De flight em flight, já na estratosfera, seguimos pelo espaço-tempo fora, desbravando as coisas novas - e velhas - que nos esperavam nos copos. O Dow's Vintage 45, elegante; o Graham's Vintage 55, belíssimo, não fora tão doce...; o Taylor's Vintage 63, com um final longo, numa obra prima de integração e evolução; e o Fonseca Guimaraens Vintage 67, bem menos fogoso; foram vinhos que ritmaram bem a prova, elevando o nível para os patamares Paulo Cruz do costume, mas únicos. De repente o Fonseca Vintage 70, uma das vedetas da prova. Ainda fechado, cor rubi limpa, mereceu o acolhimento favorável de muitos. Logo a seguir, dois vinhos que não estavam no seu melhor - Gould Campbell Vintage 77 e Cockburn's Vintage 83 - seguidos de duas boas compensações: Graham's Vintage 85 (garrafa magnum), que consegue o milagre de fugir à lógica decepcionante de quase todos os vintages de 85; e o Quinta do Noval Nacional Vintage 94, este a não colher muitos adeptos, quanto a mim pela tendência "doce" da prova até aí.
Entrou depois o que foi para mim o campeão: o Taylor's Quinta de Vargellas "Vinhas Velhas" Vintage 95. Além da pujança do fruto, ainda presente, marcou-me a profundidade e a frescura deste néctar, muito mineral. Depois, o inevitável Graham's Vintage 2000, em diversas provas anteriores a sair como o melhor 2000; mas não em todas...
De repente, o século XVIII...
Tinha sido anunciado e aí estava ele. Um vinho do Douro Superior, da casa de Délio Mesquita, a que se convencionou chamar Reserva 1796 (engarrafado em Setembro de 2003). Castanho impenetrável, para mim passava bem em prova cega como Madeira Verdelho. Estava quase essência, apesar de uma acidez pronunciada. Não deixa de ser admirável como ainda se podem encontrar vinhos destes pelo Douro fora. E de onde este veio, havia mais: um esplêndido Reserva 1896 (engarrafado em 2002). Na cor parecia caramelo, mas na boca deixava impressões de café e pimenta, marcando pelo exotismo.
A terminar, dois lotes que podem vir a ser o próximo Vintage Niepoort 2003, criações do genial e generoso Dirk Niepoort. Um deles, super-tânico, o outro com perfil mais alcoólico, fez adivinhar que o Vintage 2003 da Niepoort vai ser a mistura dos dois. Eu experimentei juntá-los na mesma proporção e, mais uma vez, estraguei a produção à casa Niepoort. Quem bom é saber que eles não se enganam!
Não adianta entrar em comparações, entre coisas que não são comparáveis. Campeonatos destes são sempre ganhos por todos, facto aceite sem apupo. O que vale a pena é estar lá. Continua e continuará a ser inesquecível uma viagem destas.
... e um jantar à altura
Mas havia mais, com a sumptuosa mesa posta para o jantar, que havia de marcar fundo. Até porque soube resistir à tentação do vinho do Porto... Com a "cocotte de lavagante com alcachofras, cogumelos pleurotte, chanterelle, trufas e piquillo" já servida, foi vertido o inefável champanhe Ruinart Rosé bruto. Destaque para a textura da cocotte e para a pureza dos ingredientes, à vista e "picáveis" um a um. João Pires anda numa de brancos austríacos e anda bem, porque o Schloss Gobelsburg Grüner Veltliner 2002 apresenta grande versatilidade. Talvez com uma ponta de acidez a mais, para o "filete de robalo marinado com citronelle, raviolo de alho francês com manteiga de amêndoa, crocante de basílico e bivalves", o prato da noite. Impossível de conjugar na perfeição com vinho, como está a acontecer hoje na alta cozinha, em que a amplitude de sabores e aromas é muito grande.
Seguiu-se o Niepoort Charme 2002, mais um coelho tirado da cartola pela dupla Pires/Cruz, fruto da boa cumplicidade que ambos detêm com aquela casa. Aterrou em cima de um avantajado "canon de borrego com pimenta d'Espalette, pequenos legumes de Verão, molho navarin e croustillant de pão com chutney de tomate e balsâmico". Meteu-me medo o chutney com o vinho quando olhei para o menu no princípio do jantar, mas estava bem macio, com acidez controlada. O vinho - o único português do jantar - mereceu comentários favoráveis por parte de toda a gente, mas não houve o entusiasmo merecido. Afinal, foi um ano terrível, em termos de vindima para o Douro, mas Dirk Niepoort não deixou de prouzir o seu topo de gama.
A refeição foi coroada com um vinho que nunca teremos por cá. Trata-se do espantoso e delicioso Inniskilin Cabernet Franc Icewine 2001. Prensado com as uvas colhidas tardiamente e com o frio gélido do Canadá, deu um néctar que pôs todos KO. A pomada veio para acompanhar a "tarte folhada de frutos vermelhos e sorbet de toranja". Para mim, esta última iguaria estaria bem só por si. Se há coisa boa na conjugação de comida com o vinho, é a complementaridade e aí o jogo estava interessante.
Epílogo
No final, os discursos e os considerandos, na sua maioria pedindo a Paulo Cruz que não desaparecesse e que continuasse sempre, dentro da sua generosidade, a partilhar connosco os bons vinhos da sua colecção. Ouviu-se uma proposta tímida de alguém, sugerindo que na próxima vez cada um trouxesse um vinho do Porto da sua eleição, para partilhar. Paulo Cruz não diz que não. Vamos é ver se acontece.
É que - repito - o que Paulo Cruz não faz, ninguém faz. E o vinho do Porto bem merece.
2003/11/28
Os eleitos do meu coração
De cerca de 30 vinhos do Porto Vintage provados, fica aqui o registo dos que, numa escala de 20 valores, ficaram acima dos 17,5. A prova foi feita às cegas, ou seja, sem identificação das amostras. Não provei sozinho, fi-lo com quatro provadores mais.
As estrelas de 2001
19,5 Fonseca Guimaraens Guimaraens. A casa está num caminho imparável, sistematicamente encostada ao topo da classificação, ano após ano. A marca Guimaraens sai nos anos não clássicos e, mesmo assim, apenas quando os néctares estão à altura. Nariz muito mineral e floral. Toda a prova é em potência e, ao mesmo tempo, equilíbrio. O final é interminável, num vinho que se podia dizer perfeito.
19 Quinta do Noval Nacional. Como é sabido, estes vintages vêm de um talhão de vinha pré-filoxérica, especial já dentro da especialíssima quinta do Cima Corgo. Impressionante na cor, retinta, o aroma é muito intenso de violetas e cogumelos frescos, mineral, para uma boca interminável de impressões difíceis de narrar.
18,5 Quinta do Noval Silval. Está a tornar-se o porta estandarte da qualidade da mítica - e inalcançável - Quinta do Noval. Nariz muito floral e boa potência no global da prova. Taninos muito bem trabalhados e fortes, com tudo bem integrado.
18 Niepoort Secundum. Desde 1999 que a casa opta pela segunda marca quando não é clássico, mas em 2000 saiu com os dois para o mercado, curiosamente com estilos totalmente diferentes. O Vintage clássico Niepoort é super-tânico, embora de estrutura cuidada, mas claramente um vinho de guarda, enquanto que o Secundum é mais pronto para beber. Com este 2001, perguntamo-nos se não se estará a afastar do estilo Niepoort. Há que deixar passar tempo, para avaliar os vindouros. Vinho muito fechado, com boas notas aromáticas de fruta em compota. Vinho cheio, monolítico, mas seco no final, como se impõe.
18 Poças Poças. Discretamente, esta casa põe todos os anos vinhos assombrosos pela potência e concentração. Este não foge à regra, mostrando cogumelos frescos nos primeiros aromas. Boca tem entrada exuberante, embora depois perca alguma força, na continuação da prova.
18 São Pedro das Águias São Pedro das Águias. Austero na prova, cor tinta da china. Boa complexidade, explosão rica de canela, noz moscada e gengibre. Dá muito gozo.
18 Senhora do Convento Senhora do Convento. Potência em figura de vinho, sempre muito equilibrado em todas as fases da prova. Sente-se muito o álcool, mas não lhe retira os louros.
17,5 Cockburn Quinta dos Canais. Este vinho surpreendeu, por nos últimos anos não terem vindo da casa néctares com este tipo de foco, limpeza e afinação. Nariz de fruta escura muito madura. Cor carregada, espesso, quase tinta da china. Arquitectura esplêndida. Na boca mostra chocolate preto, confirmando o frutado que se sentia no aroma. O final de prova é seco.
17,5 Fonseca Guimaraens Quinta do Panascal. Esta quinta, além de ter o enoturismo mais antigo do vinho do Porto, é uma verdadeira montra de viticultura, gerida pela mão sábia de António Magalhães e acompanhada muito de perto por David Fonseca Guimaraens. A visita recomenda-se vivamente. Tudo é agradável neste vinho e pode beber-se desde já. Muito boa amplitude de prova. Uma surpresa bem agradável.
17,5 Poças Quinta de Santa Bárbara. Um dos terroirs de eleição da Poças. O vinho está bem cheio, com notas ricas e evidentes de chocolate.
17,5 Quinta de Ventozello Quinta de Ventozello. Propriedade gigante, há poucos anos comprada por espanhóis da Galiza, está a mostrar um dos primeiros produtos da nova gestão. A enologia continua portuguesa e é com alguma surpresa que se vê este vinho a chegar tão alto, num ano que não foi o melhor. Está fresco e vegetal na boca, sendo tudo em boa potência, apesar de se encontrar ainda “mudo”.
17,5 Real Companhia Velha Quinta das Carvalhas. A quinta-emblema da RCV, juntamente com a Quinta de Cidrô. O trabalho aturado nas vinhas sente-se desde o Vintage 97, mesmo em anos que não são absolutamente favoráveis. Embora em “tom maduro”, o que não é normal nas Carvalhas, o vinho tem uma estrutura interessante. É marcado, contudo, pela frescura e comprimento no final de prova.
17,5 Vallegre Vista Alegre. Esta empresa fica perto de Chanceleiros, por cima do Pinhão e não tem nada a ver com a fábrica de porcelana do mesmo nome. Tem lutado muito pela consistência e, provavelmente, chegou a um patamar do qual deve ter a inteligência de não sair. Está aberto, prontíssimo a beber, mas não é por isso que se mostra menos complexo. É o vinho indicado para quem gosta de sabores intensos.
"El Gran Menú de Degustación" de um dos pioneiros da nova cozinha basca
Estávamos calhados para ir há já algum tempo. Passa-se de raspão, cada vez mais depressa, por San Sebastian, a Donostia no dizer dos bascos. Martín Berasategui, hoje com um pequeno império bem montado, sobre as estacas fundas das suas raízes familiares, esteve e está sempre à espera de quem o quiser visitar. De olhos francos e atitude cândida, tem uma cozinha que prima pela inteligência e perspectiva histórica. E tem três estrelitas Michelin, o rapaz.
"Se hoje quisermos ver um robalo como os de antigamente, temos de ir ao aquário", diz ele num dos seus belos livros. A dita espécie piscícola tem trono real no seu grande menú de degustação e é exactamente por ter tido grande preponderância outrora na região que Martín o quis mostrar no seu restaurante. Isto pelo lado da abordagem histórica, apenas como exemplo. No lado intelectual, a extraordinária experiência de um mil-folhas de enguia fumada, foie gras, cebolinha e maçã verde. Impossível de prever, a degustação desta maravilha deixa memórias e desafios indeléveis.
Vamos então ao menú.
Para mais coisas sobre o menino-prodígio-que-virou-empresário, www.martinberasategui.com.
AMUSE-BOUCHE
Uma extravaganza de três pequeninas entradas, com uma mensagem clara: frutos do mar, frutos da terra e frutos da época. Começámos assim s nossa jornada difícil de esquecer.
1º Vinho - Cava Llopart Integral Brut Nature - Não tem uvas da casta Xarello, o que é, desde o início, um factor distintivo de todos os outros cavas. Vinho interessante, mas sem a secura que se desejava, para começar uma refeição em beleza como esta prometia ser.
2002 Crema de remolacha con infusión de berberechos al txakoli
Creme de beterraba com infusão de berbigão em vinho Chacolí
O vinho Chacolí aqui presente é um manifesto a favor de um néctar em tudo semelhante aos outros vinhos - de qualidade duvidosa -, mas que se bebe apenas no país basco... há muitos, muitos séculos. Textura cremosa, sabor forte da beterraba e do vinho, a deixar os berbigões mais como uma textura do que como uma iguaria completa.
2002 Croqueta cremosa de patata
Croquete cremoso de batata
Muito homogéneo, massa bem ligada e refeição espanhola que não comece com uma croqueta não é refeição. Alusão clara ao tapeo basco, que se faz abundantemente pelas ruas de San Sebastian.
2003 Sopa de Calabaza y mandarina
Sopa de abóbora e tangerina
Excelente trabalhinho de integração das duas iguarias. Por um lado, confortável no estômago, por outro suficientemente ácida para abrir o apetite.
PRATOS
2º Vinho - Guitian Godello Bierzo branco 2002 - Vinho muito interessante, boa fruta. Foi dos que andou melhor com a comida.
1995 Milhojas caramelizado de anguila ahumada, foie gras, cebolleta y manzana verde
Milfolhas caramelizado de enguia fumada, foie gras, cebolinha e maçã verde
Tem princípio, meio e fim, com todas as componentes diferentes que devem compor um prato equilibrado. O verde da maçã e as gorduras que se sentem do foie gras conduzem, com a cebolinha caramelizada, a uma experiência única. Elaboração e pontos de cozedura impecáveis.
2003 Sopa de cebolla y queso, panceta ahumada assada y cuajada de queso trufado
Sopa de cebola e queijo, panceta fumada assada e cuajada de queijo trufado
Aroma e consistência brilhantes. Servida fria, parece uma vichyssoise de alho francês, mas a cebola dá-lhe um toque mediterrânico interessante.
2003 Vieira y ostra en finas láminas con licuado gelatinizado de su coral
Vieira e ostra laminadas com água de cozer peixe gelatinizada
O fundo gelatinoso é brilhante, com sabor genuíno a mar, fazendo uma cama deliciosa para as vieiras e ostras, com toques cítricos inesquecíveis. A água utilizada para o gel é a da cozedura de cocochas (barbelas) de pescada.
3º Vinho - Belondrade y Lurtón Verdejo Rueda branco 2002 - Este vinho nunca fez ninguém saltar da cadeira, mas não vai mal na mesa, para comer com ele.
2002 Ensalada tíbia de tuétanos de verdura con marisco. Crema de lechuga de caserio y jugo yodado
Salada tépida de corações de legumes com marisco. Creme de alface com sucos iodados.
Estamos sempre no mar, agora nesta relação de muita proximidade com a horta. É isso que diferencia este prato da cozinha normanda, mas a confusão é alguma. Uma espécie de salpicão de marisco, que se traduz num festival de grande ritmo de texturas, aromas e sabores.
1999 Gelatina caliente de frutos de mar con sopa de anís y sorbete de hinojo
Gelatina quente de frutos do mar com sopa de aniz e sorvete de funcho
Absolutamente surpreendente. Há percebes, ostra, com cozeduras perfeitas e uma grande envolvência. O sorvete faz aqui as vezes do trous normand, para limpar o palato e preparar-nos para a fase seguinte do repasto.
4º Vinho - Alfons (de Luzón) Jumilla tinto 2001 - Vinho francamente interessante, foi uma belíssima descoberta. E, finalmente, um tinto!...
2003 Germinado de cebolleta dulce y anchoa, con emulsión de pimiento asado, patata y tomate
Pequeno guisado de cebolinha doce e anchovas, com emulsão de pimento vermelho assado, batata e tomate
Este prato dá um salto rápido para a gastronomia mediterrânica, exceptuando a anchova. Este prato podia ser português, é muito simpático, de repente, para os nossos sentidos.
2003 Lubina asada con caldo de acelgas, pil-pil de mostaza y ensalada de sésamo
Robalo assado com caldo de acelgas, pil-pil de mostarda e salada de sésamo
Salta imediatamente aos sentidos o bom ponto de cozedura do robalo, com uma textura crocante. O aroma colou impecavelmente ao vinho.
2003 Pichón asado con penca, queso comté, cerezas y manzanas
Pombo assado com couve portuguesa, queijo comté, cerejas e maçãs
De novo a horta, com uma carne que pontua bem, normalmente e se as coisas correrem todas bem. Foi identificado como caseiro o pombo e Martín Berasategui afirma que é assim. Há uma tradição no país basco de criação doméstica de pombos para alimentação. Tivemos aqui um festival final de texturas. Reduções brilhantes, tudo muito bem conjugado.
DOCES
5º Vinho - Telmo Rodriguez Molino Real Málaga branco - É um vinho excepcional, que Telmo Rodriguez, um dos meninos-sensação de Espanha - o mesmo que faz os vinhos Gago -, concebeu, restaurando o vino dulce de Málaga, de tradição e técnicas centenárias.
2003 Infusión de piña con helado de coco, chocolate y granizado de ron
Infusão de ananás com gelado de côco, chocolate e granizado de rum
No final de boca, é impossível separar os ingredientes e, no entanto, sentem-se todos enquanto se saboreia o prato. Estrela forte neste prato.
2003 Almendra tostada en pastel tíbio con sorbete de miel
Pastel tépido de amêndoa torrada com sorvete de mel
Muito bem, terminar com frutos secos e a acidez do mel.
2003/10/28
João Paulo Martins completou 10 anos do seu guia com festa
Não vou fazer comentários ao livro do João Paulo, porque a compra é obrigatória. Nem vou falar do genial suplemento que vem com o dito, no qual JPM volta a provar todos os seus "melhores do ano". Mas não vou deixar de aqui revelar uma pequeníssima curiosidade. Ele diz "enganei-me", ou qualquer coisa semelhante, quando volta a provar alguns dos vinhos nos quais ele tinha apostado muito, em tempos idos.
Não é ironia barata, não senhor. "A ironia é a mais vil das armas", já dizia Rilke e eu aprendi na altura certa. É absolutamente notável a atitude de JPM, acerca de um produto que, como todos sabemos, está em permanente mutação. É um produto alimentar, afinal.
Espanta-me, ainda assim, que hoje JPM consiga singularizar os "melhores". Não vou a meças com a sua escolha, nem pensar, está tudo muito bem. Mas talvez o designativo entrasse melhor se fosse "os mais iguais de entre os iguais". Diferente, diferente, foi o Utopia, da Quinta dos Cozinheiros, a propriedade colada à Figueira da Foz pertença da família de José Mendonça. Para a esmagadora maioria, aliás, a festarola no Clube de Golfe da Bela Vista (Vítor Sobral) foi a ocasião primeva para provar o nec plus ultra dos néctares dos Cozinheiros.
O resto, descontados alguns ângulos e contando com as condições da prova - em pé, a comer ao mesmo tempo, etc. - pareceu-me francamente parecido. Gabo a paciência, em privado, a JPM, pelo tremendo afinco e honestidade com que se atira para a frente e escolhe, todos os anos, os vinhos do nosso contentamento.
Mas por que razão me parecem os vinhos tão "tal qual o anterior e o próximo"? Não sei, tenho algumas luzes sobre o assunto, mas penso que nunca terei a resposta.
Esta de hoje, é só mesmo para deixar cair.
Mas é verdade.
2003/10/22
O homem do vinho do Hotel Ritz vai largado, deixem-no passar!
"Cuidado com as imitações", é a frase que falta na nova carta de vinhos do Hotel Ritz / Four Seasons, em Lisboa, a catedral da hotelaria de porta intransponível para os menos abonados. E uma experiência que hoje é fundamental, para os que, mesmo sem a bolsa a rebentar, apreciam o que é bom.
Se isto não fosse um blog, eu até me preocupava com as apresentações. Assim sendo, não. João Pires é o sommelier mais galardoado e internacional que por cá anda, mentor de muitos outros lusos, infinitamente menos afoitos do que ele, para grande mal do vinho, do seu serviço e da sua cultura. Os seus títulos são, no Four Seasons, "Head Sommelier" e "Fine Dining Manager". O seu e-mail é joao.pires@fourseasons.com, por isso, se quiserem conhecer o homem, façam favor de não deixar passar mais tempo, ponham-se no caminho dele e desafiem-no. A sério. Ele aguenta.
O "Head" no título de João Pires é particularmente justificado, ao lançar uma nova carta de vinhos como a que acaba de lançar. Se há coisa que a nova carta tem, é massa cinzenta bem aplicada. Serei talvez um pouco lerdo, mas demorou algum tempo, até que eu percebesse qual era a ideia, no alinhamento das 256 referências que se podem encontrar quando se vai ao Ritz em "Projecto Janting".
Vamos lá, então:
1. Antes de mais, a reverência feita aos enólogos, em detrimento dos produtores, que vêem o seu nome omitido da carta. Foi uma opção dura mas sentida como primordial por João Pires. O meu comentário: brilhante, na maioria das situações - é mais que justo que os artífices apareçam junto da sua obra - mas complicado, quando o produtor é o criador do néctar. Volto a insistir numa guerra antiga: há que fazer distinção entre criadores e enólogos, que isto anda demasiado confuso. Fica o desafio de colocar, sem medos, o criador de cada vinho, seja enólogo ou não.
2. A farta oferta de vinho a copo, sempre com um "truque". João Pires mostra sempre as coisas aos pares: um vinho fácil, ao pé de um mais difícil; nalguns casos, mais: um português, ao pé de um estrangeiro. Se isto não é uma saída inteligente, eu sou um apito.
3. A conjugação de vinhos com iguarias, sugerida sempre de uma forma extraordinariamente subtil. João Pires evita o que eu chamo de "efeito escadote". Não utiliza notas dominantes de um vinho, por exemplo citrinos, para aconselhar um prato cítrico. Faz a ligação pela complementaridade e, aparentemente, busca balanços equilbrados de acidez. Este ponto não é, nem podia ser, objectivo, porque a conjugação, cada um faz como quer, mas eu concordo particularmente com esta.
Os três pontos acima são, note-se, de natureza estratosférica, e não constituem matéria de crítica. Se assim fosse, todas as outras cartas de vinhos ficariam anuladas, ou reduzidas a pó.
Que eu saiba, e tanto quanto consegui apurar, é a primeira vez que um hotel faz uma chamada aos críticos para lhes mostrar a sua nova carta de vinhos. O Four Seasons fez, e fez de uma forma superlativa. O Four Seasons em Lisboa é campeão porque apoia o labor de João Pires, incluindo a sua carreira internacional, de que vamos ouvir falar ainda muito. Com esta jogada, o Four Seasons posicionou-se em definitivo na rampa de lançamento para uma viagem "para fora", que rapidamente pode criar o pleno no ambicionado guia. Pascal Meynard, Chef Executivo do Four Seasons, e Stéphane Hestin - este trabalhou com Bernard Loiseau (falecido) e Georges Blanc -, Chef do Restaurante Varanda, já puseram a mão na massa e já se sente. O Director Geral é um homem que sabe confiar quando o pessoal está à altura e isso também se sente. Está a deixar trabalhar os rapazes. Parabéns.
A terminar, devo confessar que me tomou muito tempo, até perceber por que raio os preços dos vinhos eram tão altos. Conhecendo o preço de venda à porta da adega, não se justificaria que, por exemplo, o copo de Sauvignon Blanc 2002 da Lavradores de Feitoria (Douro) custasse 6 Euros, mais caro do que a garrafa toda custa ao Four Seasons. Mas finalmente percebi! O dito copo de vinho é mais barato do que uma garrafa de água pedida ao Room Service. Estamos no Four Seasons, senhores...
2003/08/25
Mesmo à boca das vindimas de 2003, vim a Mateus, cumprir uma parte das férias, que são também obrigação. Fico abismado com o envolvimento na Lavradores de Feitoria e também no levante que a vai sempre levando para melhores terrenos. O inefável Sauvignon Blanc 2002; o espesso Quinta da Costa 1999; e o brilhante Três Bagos 2001; todos são experiências a repetir mas que, decorando as concorridas mesas dos convidados de Mateus, se transformam numa festa especial. Nunca vi coisa assim e, no entanto, Mateus significa para mim sempre uma certa festa do vinho e dos seus obreiros. Foi assim que conheci a casa e, apesar de tantas outras coisas extraordinárias que me tem proporcionado, é assim que a continuo a visitar.
Este ano, os passeios à volta mostraram o que se vê em todo o lado. O país cobriu-se de carvão, agora que as chamas se desinteressaram do pratinho que lhes foi servido em bandeja de prata. É assim que vão começar as vindimas. Estamos instáveis na relação com a natureza, mas seguros de que vamos ter um ano de vinho em cheio. Oxalá! Percamo-nos, para já, para dentro de cachos cheios de coisas boas. Não há prazer que não seja egoísta e este, este ano, não o podia ser mais. Venha o vinho e o que é bom, que já chega de chorar.
Comprei em Vila Real uma tradução de "Ficções", de Jorge Luís Borges, que não conhecia. Procurei nos meus recantos favoritos aquilo que sempre me entrou mais, para confrontar. Aparece, logicamente, em "A biblioteca de Babel", qualquer coisa como "morto, não faltará quem me empurre da balaustrada". Não é pelo exercício masoquista mas, junto ao que tem acontecido, não tenho dúvidas de que caiu uma maldição em cima dos críticos de vinhos e de gastronomia. Morreu o Oliveira Figueiredo em Junho, o Hélder Pinho no princípio de Agosto, e o Matos Cristóvão há cerca de uma semana. O João Afonso queimou-se a defender a sua casa das labaredas - maldito fogo, que não larga -, com tanta coisa para escrever e quando mais precisava das suas mãos. Felizmente levou a melhor. Espero que as coisas fiquem por aqui, ou que seja eu o próximo. É insuportável assistir impotente a tanta partida e fuga.
Estamos demasiado habituados aos chavões e "o seu trabalho será sempre lembrado" está sempre no top. Não é verdade. O trabalho nefasto e ingrato da crítica morre em cada peça que se escreve. O património do crítico morre quando o crítico se vai. Há outros. Vêm outros. Vêm aqueles que os vão empurrar da balaustrada da Torre de Babel. Que razoável era afinal Borges! Não posso prometer que lembre sempre os que me antecederam, mas posso prometer que os não vou deliberadamente empurrar para fora. Por isso, vou ter uma vida mais saudável. Vou fazer dieta e andar mais contente. Espero que chegue, para pagar vidas tão caras; tanto, que acabaram antes da minha. No jantar da Levada, já não houve arroz nem batatas nem extravagâncias calóricas. Vinho, houve, nem podia ser de outra maneira. Que sirva o feito para honrar quem se foi. Até já.
No dito jantar, saiu bem o Kolheita 2001, o nec plus ultra da Kolheita de Ideias, venture de Luís Soares Duarte, Rui Moreira e Francisco Ferreira. Surpreendeu o Quinta da Estrada 2001, da Lavradores de Feitoria. Correu bem a companhia. O único que não era produtor, importador, nem enólogo era eu. Sou sempre o que menos sabe, bolas, apesar de ser sempre um dos que mais fala.
Faltam nestas alturas os vinhos do mundo. Parece-me medíocre, o exercício de comparar Douro com Douro, mais ainda a ideia de o fazer apenas para que se congratulem reciprocamente os que fazem os vinhos. Apeteceu-me imenso ter ali connosco alguns vinhos tintos espanhóis de que tanto se fala, alguns Sauvignon Blanc, para ver se o 2002 da Lavradores de Feitoria é mesmo o "meu" melhor Sauvignon Blanc, e até qualquer coisita de Itália, que me dá a impressão que nos podia ensinar muito. Lamento profundamente que os enólogos portugueses não sejam tarados pelos novos vinhos do Piemonte.
Vêm aí as vindimas e diz-se que até ao lavar dos cestos estamos nelas. Desejo a todos um bom proveito. Parece que está tudo a favor. Para mim não, mas isso interessa pouco.